sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Carvalho e Araújo (Alexandre Herculano de).


n. 28 de Março de 1810.
f. 13 de Setembro de 1877.

Grande historiador.

N. em Lisboa a 28 de Março de 1810, fal. em Vale de Lobos a 13 de Setembro de 1877.

Era filho de Teodoro Cândido da Araújo, recebedor da antiga Junta dos Juros, hoje Junta do Crédito Público, e de D. Maria do Carmo de S. Boaventura, filha de José Rodrigues de Carvalho, pedreiro empregado nas obras da Casa Real. A sua educação literária começou com o estudo do latim e latinidade nas aulas dos padres congregados de S. Filipe Nery, do hospício das Necessidades, sendo seu mestre o padre Vicente da Cruz.

Preparava-se para continuar os preparativos indispensáveis para a matrícula na Universidade de Coimbra, mas em 1827, cegando seu pai, e sofrendo seu avô materno um grande revés da fortuna, pela falta de pagamento de somas importantes de que era credor como mestre nas obras da Ajuda, faltaram-lhe os recursos; contudo, Alexandre Herculano não desanimou do seu propósito de se ilustrar, e conseguiu aprender particularmente as línguas francesa, inglesa e alemã, matriculando-se no primeiro ano da Aula do Comércio em 1830, seguindo o curso de Paleografia, a que então se chamava Diplomática, na Torre do Tombo, regido por Francisco Ribeiro Dosguimarães, no ano lectivo de 1830-1831. Desta época data a primeira revelação que teve da literatura alemã, que lhe fez a marquesa de Alorna, como ele próprio confessa na biografia que escreveu daquela ilustre senhora. Contava 21 anos, e já o jovem estudante, com os conhecimentos variados que adquirira, bem mostrava que a sua mocidade fora bem dedicada ao estudo. Animavam-se então naquela época os ânimos políticos; a guerra civil com todos os seus horrores absolutistas, enchia de presos as cadeias do reino só pelo crime de serem liberais, e nas praças públicas eram os patíbulos levantados consecutivamente.

Alexandre Herculano viu-se obrigado a interromper os estudos para seguir a voragem da revolução; inimigo de todas as opressões, e estrénuo defensor da liberdade, uniu-se aos constitucionais, e sendo implicado na malograda revolta de infantaria n.º 4 em 31 de Agosto de 1831, teve de refugiar-se na casa do capelão da colónia alemã, passando dali a bordo da fragata francesa Melpomène, que estava fundeada rio Tejo, e depois, juntamente com outros emigrados, para o paquete inglês que se dirigia a Falmouth e Plymouth. Embarcou para Jersey, e dirigindo-se a Saint Malot, teve de arribar a Granville, seguindo daqui por terra com os seus companheiros a Rennes, capital da Bretanha, onde existia um depósito de emigrados portugueses. Nesta cidade aproveitava todas as horas de que podia dispor, em estudar na biblioteca os livros e manuscritos. Os emigrados embarcaram em Fevereiro de 1832 para Belle-Isle, na expedição que ia reunir-se na ilha Terceira ao imperador, que já ali estava, e chegaram a 19 de Março do referido ano. Alexandre Herculano fez parte da expedição, em que também se encontrava Garrett como praça de soldado de caçadores, e muitos outros homens notáveis, Herculano assentou praça em 26 de Março como voluntário da rainha D. Maria II, tendo o n.º 35 da terceira companhia. Pouca demora teve nos Açores, porque em 27 de Junho partia o pequeno exército liberal, composto de 7.500 bravos, com destino ao Porto, e em 8 de Julho desembarcava nas praias do Mindelo. No cerco do Porto, Herculano foi um dos mais valentes e dos que mais se distinguiram; achou-se nos mais temíveis transes, brilhando na sua nota de serviços datas gloriosas, como a do reconhecimento da cidade de Braga até Bouro em 14 de Julho de 1832, o de Valongo, a acção de Ponte Ferreira em 22 e 23 de Julho de 1832, etc. Em 22 de Fevereiro de 1833 foi dispensado do serviço militar para coadjuvar o bibliotecário do paço episcopal; esta escolha era devida à sua paixão literária já conhecida, embora os seus estudos fossem até então incompletos.

Por decreto de 17 de Julho de 1833 foi nomeado segundo bibliotecário da Biblioteca Pública do Porto, e exercia ainda esse cargo, quando rebentou a 10 de Setembro de 1836 o movimento em Lisboa contra a Carta Constitucional. Herculano mandou logo no dia 17 um ofício ao presidente da câmara municipal dando a sua demissão, dizendo que partia para Lisboa, porque prestara a maior fé à Carta Constitucional. Partidário exaltado da Carta, a ponto de prejudicar os seus próprios interesses, Alexandre Herculano defendeu-a com toda a energia, combatendo A Revolução de Setembro, jornal que então se criara em oposição. No Repositório Literário, do Porto, publicou três ou quatro artigos veementes e de máximo interesse. Foi também nesta época que apareceu a Voz do Profeta, que pelo estilo vigoroso e enérgico, fulminava com o maior arrojo o movimento político de 1836. A Voz do Profeta causou profunda impressão em todo o país. O rei D. Fernando nomeou-o em 1839 seu bibliotecário, com o vencimento anual de 600$000 réis, pagos do seu bolso, dando-lhe também casa para residir; pouco depois, Herculano, sem exigir mais remuneração, encarregou-se de organizar as bibliotecas reais da Ajuda e das Necessidades. Então, engolfado entre os livros que eram todo o seu pensar, continuou a vida de escritor, a quem o futuro reservara o justificado título de poeta filosófico, romancista eminente, e historiador profundo e consciencioso. Em 1837, a Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, querendo fundar O Panorama, um dos jornais literários mais importantes que se tem publicado em Lisboa, pediu a Alexandre Herculano que se encarregasse da sua direcção. Foi o redactor principal até Julho de 1839, mas, apesar de resignar este título, continuou a escrever, posto que com menos frequência, assinando os seus artigos até 1842.

Em 1843 efectuou-se novo contrato, e os Panoramas de 1853 e 1854 têm muitos artigos de Alexandre Herculano, que mais tarde se publicaram em livros. Em 1852, conjuntamente com o marquês de Niza, fundou o jornal político O País, em que fez veemente oposição ao governo. Dois anos mais tarde organizou outro jornal, intitulado O Português. A Academia Real das Ciências intentou a publicação dos Monumentos históricos de Portugal, desde o século VIII até ao século XV, começando por distribuir em épocas os trabalhos de indagação e catalogação dos mesmos monumentos, e devendo a primeira parte abranger os do século VIII até ao ano de 1280. Esta obra Importantíssima foi encetada, e compunha-se de três partes: Escritores, Diplomas e Cartas, Leis e Costumes. Alexandre Herculano havia sido nomeado sócio correspondente em 21 de Fevereiro de 1844, efectivo em 13 de Fevereiro de 1852 e de mérito em 14 de Junho de 1850. Ninguém mais habilitado do que ele poderia ser chamado para um trabalho daquela ordem, para o qual eram precisos grandes conhecimentos de diplomática e de paleografia, e a maior prática de rever arquivos. O parlamento votou a dotação anual de 1.000$000 réis para ajudar aquela empresa nas suas despesas extraordinárias. Em 6 de Junho do 1853 saiu de Lisboa Alexandre Herculano, em direcção à Beira, onde até Setembro visitou todos os arquivos e bibliotecas; e no ano seguinte fez igual digressão nos mesmos meses até à, província do Minho, colhendo daquelas duas jornadas uma enorme porção de documentos de todos os arquivos eclesiásticos e seculares, que deviam ser chamados a Lisboa para serem examinados detidamente. Foram excessivas as dificuldades com que teve de lutar, porque muitas corporações religiosas opuseram a maior resistência em franquearem os arquivos, e muitos destes também se encontravam num lastimoso estado de abandono. Um deplorável incidente o obrigou a afastar-se.

Sendo em Março de 1856 nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, Joaquim José da Costa Macedo, que pouco tempo antes pedira a sua exoneração de sócio e de secretário perpétuo da Academia, por grandes desinteligências que o tornavam incompatível nesta corporação com alguns dos seus colegas, Alexandra Herculano declarou terminantemente na sessão de 31 do referido mês, que em vista daquela nomeação, não podia voltar à Torre do Tombo, em consequência da incompatibilidade de privar com o novo guarda-mor; e como os seus trabalhos para a publicação dos Monumentos históricos exigiam as suas frequentes visitas ao arquivo nacional, resignava os serviços que poderia prestar, e assim demitia-se do cargo de vice-presidente, e até mesmo de sócio. A Academia em 9 de Outubro do mesmo ano, deu-lhe novo diploma de sócio, que ele aceitou, e em Dezembro tornou a elegê-lo vice-presidente. Herculano , numa carta datada de 27 deste mês, não só persiste na resolução de não ocupar a vice-presidência, mas declara-se «morto para as letras, enquanto se achar colocado pelos poderes públicos entre a humilhação e o silêncio, entre a desonra e a abstenção, porque a pátria tinha o direito de exigir tudo de seus filhos, menos o aviltamento.» Foi esta a razão porque deixou os Monumentos históricos e a História de Portugal, em que também trabalhava, e a vida activa das letras, entregando-se à agricultura na quinta do Calhariz, pertencente aos duques de Palmela, no concelho de Sesimbra, que por esse tempo trazia arrendada, indo desterrar-se mais tarde, em 1867, para Vale de Lobos, onde se conservou até falecer.

Em 8 de Outubro de 1857 fora aposentado o guarda-mor da Torre do Tombo, e Alexandre Herculano tinha de novo aberta a porta daquele arquivo público, e como sócio da Academia, que se encarregara dos Monumentos históricos, voltou à sua tarefa até 1873, mas por sua morte deixou incompleta, apesar de ficarem muito adiantadas as três partes. A História da Inquisição, e a maneira como descreve no 1.º volume da História de Portugal a batalha de Ourique, negando a aparição de Cristo ao fundador da Monarquia, levantaram contra ele as iras de todo o clero, que não se fartava de o invectivar por toda a forma, tanto em folhetos, como em jornais religiosos, e até nos próprios púlpitos, chegando a acusá-lo de deprimidor das glórias portuguesas. Alexandre Herculano respondeu então com toda a energia, em 4 folhetos, que publicou em 1850: Eu e o clero, carta ao patriarca de Lisboa; Considerações paciíicas ao redactor da Nação; duas cartas a Magessi Tavares, intituladas: Solemnia Verba; e em 1851 publicou outro folheto: A ciência Arábico Académica, carta a Silva Túlio em resposta ao folheto dum académico.

A respeito do casamento civil também escreveu três estudos, por ocasião de ser publicado um opúsculo pelo visconde de Seabra. sobre este assunto. Herculano fez parte da comissão revisora do projecto do Código Civil, e é dele também a última redacção do Código. No ano de 1858 o círculo de Sintra quis elegê-lo seu representante em Cortes, porém ele não aceitou. Era cavaleiro da ordem da Torre e Espada, agraciado por decreto do primeiro de Março de 1839. Aceitara esta mercê, porque entendia que a merecera como soldado, mas depois dessa data rejeitou sempre todas as honras, recusando a comenda da mesma ordem ao próprio soberano, el-rei D. Pedro V, que o procurara um dia para lha oferecer; os arminhos de par em 1861, e a grã-cruz da ordem reformada de S. Tiago em 1862. O motivo destas renúncias está exposto numa carta que publicou em 7 de Dezembro de 1862 no Jornal do Comércio. Apenas aceitou a eleição, por um dos círculos do Porto, para deputado em 1840, e a de vereador, e depois a de presidente da câmara de Belém em 1852. Enquanto viveu na sua casa da Ajuda, recebia todos os sábados a visita de muitos dos seus amigos, na maior parte escritores e poetas distintos, que o respeitavam como mestre, e com quem discutia politica e literatura.

Os últimos anos da sua vida foram quase dedicados aos trabalhos agrícolas, prestando assim grandes serviços à agricultura. Poucas vezes vinha à Lisboa, e a última vez foi no primeiro de Setembro de 1877 para visitar o imperador do Brasil, retirando-se para Vale de Lobos já, bastante doente, falecendo no dia 13, conforme dissemos. O seu cadáver ficou depositado na igreja da Azóia, em Santarém, no jazigo do general Gorjão, e no dia 15 realizaram-se exéquias solenes, a que concorreu muita gente de Lisboa, representantes de toda a imprensa periódica, de corporações, da Academia Real das Ciências, deputados, ministros, etc. Suas Majestades, o Rei D. Luís e Senhora D. Maria Pia, também se fizeram representar. Sobre o féretro foi colocada uma coroa em nome da imprensa periódica, onde se lia a seguinte dedicatória: A Alexandre Herculano, a imprensa, 15-9-77. As repartições e uma grande parte dos estabelecimentos de Santarém, conservaram-se fechados no dia do funeral, em sinal de sentimento. Em 27 de Junho de 1888 foram solenemente trasladados os seus restos mortais para a igreja dos Jerónimos em Belém.

Alexandre Herculano casou no primeiro de Maio de 1867 com D. Mariana Hermínia de Meira. Era também sócio da Academia Real das Ciências de Turim, da Real Academia de História de Madrid, da Real Academia de Ciências da Baviera, membro do Instituto Histórico de França e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. Além do muito que se tem escrito sobre, o grande historiador, mencionaremos o artigo do Sr. Dr. Teófilo Braga, na Enciclopédia Portuguesa Ilustrada, publicada no Porto, vol. V, pág. 68. A Revista Contemporânea, 1.° vol., pág. 7; o Novo Almanaque de lembranças luso-brasileiro para 1879, artigo de A. X. Rodrigues Cordeiro, etc.

Transcrito por Manuel Amaral


Fonte:

Dicionário de Portugal





por Ana Maria dos Santos Marques




Nascido em 28 de Março de 1810, Alexandre Herculano estuda Humanidades no colégio dos Oratorianos com vista à matrícula na Universidade, mas a cegueira do pai força-o a abdicar desse projecto e a limitar-se a um curso prático de Comércio, estudos de Diplomática (Paleografia) e de Línguas. Desde muito jovem que a sua vocação para as letras se manifesta: lê e traduz escritores românticos estrangeiros, como Schiller, Klopstock, ou Chateaubriand, escreve poesia, conhece Castilho e frequenta os salões da Marquesa de Alorna.

Em 1831, depois do envolvimento na conspiração de 21 de Agosto contra o regime absolutista de D. Miguel, exila-se primeiro em Inglaterra e depois em França. Aqui, e mais concretamente na biblioteca de Rennes, Herculano dedica-se ao estudo e inicia-se em Thierry, Guizot, Victor Hugo e Lamennais, autores que influenciarão profundamente a sua obra.

Em 1832, chega à ilha Terceira, nos Açores, integrado na expedição liberal liderada por D. Pedro e responsável pelo cerco do Porto. Nesta cidade, e depois da vitória liberal, é nomeado, em 1833, segundo bibliotecário da Biblioteca Pública e procede à sua organização.

Colabora no Repositório Literário (1834-1835) com vários artigos, dos quais se destacam dois que podem ser vistos como uma primeira teorização portuguesa do Romantismo. O primeiro, “Qual é o estado da nossa literatura? Qual o trilho que ela hoje deve seguir?”, apresenta um diagnóstico da literatura portuguesa e avança uma solução para o seu estado de decadência: o conhecimento das literaturas estrangeiras, principalmente da alemã, uma das primeiras em que o Romantismo se implantou. No outro texto, “Poesia – Imitação – Belo - Unidade”, Herculano sublinha a necessidade de a literatura portuguesa se voltar para as suas origens e traduz uma consciência nacional e moral que limita a visão da estética romântica europeia, condenando a “imoralidade” e a “irreligião” que, em sua opinião, Byron representava. Esta consciência nacional e moral está presente desde o início da sua poesia, através de um paralelismo estabelecido entre religião e pátria, espécie de profissão de fé do poeta romântico, que Herculano integrou numa visão liberal da sociedade, visível, por exemplo, em “A Semana Santa” (1829).

Em 1836, vem a público a primeira série de A Voz do Profeta (2ª série, 1837), folheto de carácter panfletário contra a Revolução de Setembro, escrito no estilo grandiloquente de Paroles d’un Croyant de Lamennais. No ano seguinte, funda e dirige O Panorama, revista literária responsável pela divulgação da estética romântica, na qual Herculano publica estudos eruditos e as suas primeiras narrativas históricas.

Em 1838, publica A Harpa do Crente, colecção das poesias mais importantes, reeditada em 1850 com traduções/versões de Béranger (“O Canto do Cossaco”), Bürger (“O Caçador Feroz”, “Leonor”), Delavigne (“O Cão do Louvre”), Lamartine (“A Costureira e o Pintassilgo Morto”) e uma balada fantasmagórica ao gosto inglês (“A Noiva do Sepulcro”). As poesias desta colectânea apresentam reflexões sobre a morte, Deus, a liberdade, o contraste entre o inexorável fluir da vida humana e a permanência do infinito. Normalmente, estas meditações têm por testemunha uma paisagem, que impõe o sentimento da solidão e da infinitude, e traduz uma marcada oposição entre a cidade e o campo (por exemplo, “A Arrábida”). Está também presente um conjunto de poemas que se referem à guerra civil e ao exílio, testemunhos poéticos da instauração do liberalismo e da saudade do desterrado. Herculano tenta também dar voz à contemporaneidade através da poesia, à semelhança de Victor Hugo, atribuindo-lhe uma função pública, doutrinária e intervencionista e tratando temas de interesse político, social e religioso (“A Semana Santa”, “A Cruz Mutilada”; “O Mosteiro Deserto”; “A Vitória e a Piedade”, por exemplo). A nível formal, a poesia de Herculano apresenta uma retórica solene, com insistência num vocabulário evocativo do “belo horrível”, apocalíptico e sepulcral, longos eufemismos e alguns recursos clássicos como o hipérbato. A sua imaginação manifesta-se em paisagens marcadas por tempestades ou ruínas e na sugestão dos mistérios da religião e da morte. Estes traços predominantes, com especial relevo para as imagens funéreas de efeito fácil e sem grande conteúdo conceptual, estarão na base do Ultra-Romantismo, e serão também postos em prática nas narrativas históricas, especialmente em Eurico, o Presbítero.

Em 1839, é nomeado por D. Fernando bibliotecário-mor das Reais Bibliotecas das Necessidades e da Ajuda. Nesta altura, entrega-se a um sistemático trabalho de pesquisa, influenciado pelos historiadores franceses Thierry e Guizot, de que resulta a publicação, em 1842, na Revista Universal Lisbonense, das “Cartas sobre a História de Portugal”. Estas constituem o ponto de partida para a História de Portugal, cujo primeiro volume sai em 1846 (os três seguintes em 1847, 1849 e 1853) e origina uma acesa polémica com o clero porque nele é posto em causa o “milagre de Ourique”; os textos desta polémica estão reunidos nos opúsculos Eu e o Clero e Solemnia Verba, publicados em 1850. É encarregado pela Academia Real das Ciências de recolher documentos antigos para a colectânea Portugaliae Monumenta Historica e, por isso, percorre várias regiões do país. Dessas viagens nasce Cenas de um Ano da Minha Vida e Apontamentos de Viagem (1853-1854). O contacto directo com a realidade nacional reforça a sua convicção de que o país necessitava de reformas a vários níveis: educativo, administrativo e económico.

Em termos políticos, Herculano identifica-se com a ala esquerda do Partido Cartista. É eleito deputado pelo Porto em 1840, mas, após ter apresentado um plano de ensino popular que não chega a ser posto em prática, desilude-se com a actividade parlamentar e abandona o cargo em 1841. Adere, então, à moderada Constituição de 1838, desaprova a restauração da Carta por Costa Cabral e dedica-se à literatura e à pesquisa. Mais tarde, depois do golpe da Regeneração, o escritor abandona a neutralidade política e colabora na formação do novo governo. No entanto, acaba por se opor ao ministério de Rodrigo da Fonseca Magalhães e Fontes Pereira de Melo. Funda os jornais O País (1851) e O Português (1853), onde põe em prática uma intensa actividade polémica contra o progresso meramente material preconizado pelo referido ministério. Entre 1854 e 1859, publica os três volumes de História da Origem e do Estabelecimento da Inquisição em Portugal. É um dos fundadores do Partido Progressista Histórico, em 1856. No ano seguinte, ataca vigorosamente a Concordata com a Santa Sé. Participa na redacção do primeiro Código Civil Português (1860-1865), tendo proposto a introdução do casamento civil a par do religioso, o que originou uma nova polémica com o clero, que se pode ler no volume Estudos sobre o Casamento Civil (1866), logo colocado no Index romano. Desiludido com a vida política, retira-se para uma quinta em Vale de Lobos, arredores de Santarém, em 1867, comprada com o dinheiro ganho com a publicação dos seus livros. Aí dedica-se à vida agrícola e à produção de azeite, juntamente com D. Mariana Hermínia Meira, namorada da juventude, com quem casara em 1866, e que esperara pela realização da sua carreira literária. Neste seu exílio voluntário, Herculano continua a trabalhar nos Portugaliae Monumenta Historica, publica o primeiro volume dos Opúsculos (1872), intervém em polémicas, como a nascida da proibição das Conferências do Casino (1871) e a respeitante à emigração (1874), reúne os materiais para o quinto volume da História de Portugal e mantém uma abundante correspondência com personalidades literárias e políticas. Morre de pneumonia, depois de uma viagem a Lisboa, em 13 de Setembro de 1877.

Poeta, jornalista, político, polemista e historiador, é todavia como romancista que Herculano será mais lembrado pelas gerações vindouras. As suas narrativas históricas assinalam o nascimento de um novo género na literatura portuguesa - o romance histórico -, no qual o autor pode pôr em prática as qualidades de investigador do passado, principalmente da Idade Média, e os seus propósitos pedagógicos.

Em 24 de Março de 1838, publica n’ O Panorama a primeira narrativa histórica, O Castelo de Faria, e em Novembro Mestre Gil. Estas e outras composições, publicadas também n’ A Ilustração, foram reunidas em dois volumes em 1851, sob o título de Lendas e Narrativas. Os romances O Bobo (vindo a público n’ O Panorama em 1843 e editado em volume em 1878), Eurico, o Presbítero (1844) e O Monge de Cister (1848), escritos à semelhança das obras do escocês Walter Scott, considerado por Herculano como “modelo e desesperação de todos os romancistas”, alcançaram um sucesso imediato e desencadearam uma onda de imitações que transformou o romance histórico em moda literária nacional em meados de oitocentos.

Nestas obras, o romancista cria cenários lúgubres e de dimensões trágicas, nos quais se movimentam românticos heróis atormentados por paixões e mulheres-anjo predestinadas para o sofrimento, sobrepostos a um pano de fundo histórico minuciosamente reconstituído. Eurico, forçado a abdicar de um amor impossível por Hermengarda, professa e transforma-se num sacerdote solitário, num poeta inspirado pelo amor e pela religião, e num “cavaleiro negro” misterioso e heróico, tingido por certas cores terríveis do romance negro. Dá voz à dor em cenários de imensidão e à luz da lua, recitando longos poemas marcados por uma grandiloquência solene, compondo hinos religiosos que ecoam nos templos da Espanha visigótica, desafiando a superioridade dos adversários para salvar a donzela amada, e, finalmente, entregando-se à morte num combate desigual, única solução para o dilema que lhe dilacera a alma: ama Hermengarda, mas não pode trair os votos que o prendem a Deus. Já Vasco, frade maldito de O Monge de Cister, cujo sacerdócio não abranda o ódio que o consome, leva o seu desejo de vingança ao extremo de negar a confissão ao homem que seduzira a irmã inocente. N’ O Bobo, o protagonista, Egas, vê a amada sacrificar-se para o libertar, mas perde-a para sempre quando assassina o rival com quem ela deveria casar.

Estes amores desesperados e estas personagens vítimas de uma fatalidade que as ultrapassa, são colocados em épocas remotas que o autor empreende retratar. Assim, ganha especial relevo a reconstituição do ambiente, através da acumulação de descrições de edifícios, monumentos, ou indumentárias, referências a costumes e práticas, a formas de convivência social, e até à linguagem, numa tentativa de criar a ilusão de total fidelidade a uma realidade pretérita. No entanto, e apesar desta rigorosa encenação, nem sempre Herculano consegue esconder as suas convicções. Por exemplo, a defesa do município, apresentada em O Monge de Cister, tem por finalidade convencer os leitores do século XIX das virtudes desse sistema administrativo, e não pode ser vista apenas como uma referência ao sistema em uso no fim do século XIV. Neste, como noutros pontos da sua obra, os caminhos do historiador e do romancista cruzam-se...

Com O Pároco de Aldeia, publicado n’ O Panorama em 1844 e em volume em 1851, Herculano cria o romance campesino, que servirá de modelo a Júlio Dinis, e apresenta como protagonista a figura do padre bondoso, protector dos fracos e amado pelas crianças. Nesta obra, apresenta-se um retrato da vida rural marcado pela serenidade, e cujo ritmo é estabelecido pelo toque do sino e pelos rituais da igreja. Faz-se, assim, a apologia da superioridade do Catolicismo face ao Protestantismo, graças aos rituais e símbolos visíveis que guiam a crença popular e contribuem para a manutenção da moralidade pública.

Herculano herói do Liberalismo, guardião da moral e promotor da ideologia romântica nacional, é indubitavelmente, ao lado de Almeida Garrett, a figura fundadora do Romantismo português e a personalidade que de forma mais completa o representa.



Bibliografia

1. Obras de Alexandre Herculano

1834 – “Qual é o Estado da Nossa Literatura?” (Repositório Literário, 1-2)

1835 – “Poesia. Imitação – Belo – Unidade” (Repositório Literário, 9-11)

1836 – A Voz do Profeta (1ª série)

1837 - A Voz do Profeta (2ª série)

Crónica de El-Rei Sebastião

1838 – A Harpa do Crente

O Fronteiro de África

1840 – Da Escola Politécnica e do Colégio dos Nobres

1842 – Cartas sobre a História de Portugal (Revista Universal Lisbonense)

Uma Sentença sobre Bens e Reguengos

1843 – O Bobo (n’O Panorama)

1844 – O Pároco de Aldeia

Eurico, o Presbítero

1845 – O Alcaide de Santarém

O Galego (Vida, Ditos e Feitos de Lázaro Tomé)

1846 – História de Portugal (1º vol.)

1847 – História de Portugal (2º vol.)

1848 – O Monge de Cister

1849 – História de Portugal (3º vol.)

1850 – Eu e o Clero e Solemnia Verba

Poesias

1851 – Lendas e Narrativas

A Ciência Arábico-académica

1853 – História de Portugal (4º vol.)

1854 – História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1º vol.)

1855 - História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (2º vol.)

1857 – Do Estado dos Arquivos Eclesiásticos do Reino

A Reacção Ultramontana em Portugal

1858 – Do Estado das Classes Servas da Península

Ao Partido Liberal Português, a Associação Promotora da Educação do Sexo Feminino

1860 – Análise da Sentença Nada no Juízo da 1ª Instância da Vila de Santarém

As Heranças e os Institutos Pios

1866 – Estudos sobre o Casamento Civil

1873 – Opúsculos (tomos I e II)

1875 – Da Existência ou Não do Feudalismo em Portugal

1876 – Opúsculos (tomo III)

1878 – O Bobo (edição póstuma em volume).



2. Bibliografia Passiva (sumária)

ABREU, Maria Fernanda de, “Del romance medieval hacia el cuento romántico: A Dama Pé-de-Cabra de Alexandre Herculano”, in Homenagem a Ernesto Guerra da Cal, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1997, pp. 301-315.

AA.VV., Alexandre Herculano. Ciclo de Conferências Comemorativas do I Centenário da sua Morte. 1877-1977, Porto, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1979.

BAPTISTA, Jacinto, Alexandre Herculano Jornalista, Lisboa, Bertrand, 1977.

BEIRANTE, Cândido, Alexandre Herculano. As Faces do Poliedro, Lisboa, Vega, 1991.

BELCHIOR, Maria de Lourdes, «Herculano “Trovador do Exílio”», in Os Homens e os Livros II. Séculos XIX e XX, Lisboa, Verbo, 1980, pp. 201-215.

BERNSTEIN, Harry, Alexandre Herculano (1810-1877). Portugal’s Prime Historian and Historical Novelist, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian/Centro Cultural Português, 1983.

BUESCU, Helena Carvalhão, “Heróis, romances e histórias: a propósito do Presbítero Eurico”, in A Lua, a Literatura e o Mundo, Lisboa, Cosmos, 1995, pp. 125-136.

CARVALHO, J. Barradas de, As Ideias Políticas e Sociais de Alexandre Herculano, 2ª ed., Lisboa, Seara Nova, 1971.

CHAVES, Castelo Branco, O Romance Histórico no Romantismo Português, Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, 1979.

COELHO, Jacinto do Prado, “Herculano Poeta – Cambiantes e Tensões”, in Colóquio/Letras, 41, Janeiro de 1978, pp. 5-18.

COELHO, Jacinto do Prado, “A outra face de Herculano”, in Camões e Pessoa, Poetas da Utopia, Lisboa, Publicações Europa-América, 1989.

EARLE, T. F., “Morte e Imaginação no Eurico de Alexandre Herculano”, in Rui G. Feijó, H. Martins e J. De Pina Cabral (eds.), A Morte no Portugal Contemporâneo. Aproximações sociológicas, literárias e históricas, Lisboa, Ed. Querco, 1985.

FERREIRA, Alberto, Perspectiva do Romantismo Português, 3ª ed., Lisboa/Porto, Litexa Portugal, s/d.

FRANÇA, José-Augusto, “Herculano ou a consciência no exílio”, in O Romantismo em Portugal. Estudo de Factos Socioculturais, 3ª ed., Lisboa, Livros Horizonte, 1999, pp. 127-140.

Herculano e a sua Obra, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1978.

LOPES, Óscar, “Como Herculano se via e como nós o vemos”, in Modo de Ler, 2ª ed., Porto, Inova, 1972.

MACEDO, Borges de, Alexandre Herculano, Polémica e Mensagem, Lisboa, Bertrand, 1980.

MACHADO, Álvaro Manuel, “Herculano: nationalisme, histoire et religion”, in Les Romantismes au Portugal. Modèles Étrangers et Orientations Nationales, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian/Centro Cultural Português, 1986.

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Fonte:

Instituto Camões