Há cem anos, foi assim em Leiria:
«O dia 27 [de Abril] deve considerar-se memoravel nos registos festivos d’esta cidade, pelo esplendor, pela animação e, sobretudo, pela elevada significação civica e patriotica das festividades promovidas pela benemerita Filial da Liga Nacional de Instrucção de Leiria em consagração do renome do grande escriptor, profundo historiador e devotadissimo português que em vida se chamou Alexandre Herculano.
Pode orgulhar-se a nossa bella cidade de ter contribuido brilhantemente para a apotheose da majestosa individualidade do poetta da “Harpa do Crente”, para essa nobilitante glorificação nacional que acaba de se celebrar em todo o país como testemunho de culto fervoroso á memoria do ardente defensor da liberdade, que foi também o português mais illustre do seculo XIX» (Jornal “O Districto de Leiria”, 30 de Abril de 1910).
Comemorava-se então o primeiro centenário do nascimento de Alexandre Herculano e Portugal devotou ao seu brilhante historiador amplas emocionantes homenagens.
Leiria não se deixou ficar para trás e dedicou a Alexandre Herculano um dos mais grandiosos festejos que nesse ano se realizaram a nível nacional.
Lançou e dirigiu a iniciativa a delegação de Leiria da Liga Nacional de Instrução. Um «Cortejo Cívico» percorreu a cidade, a partir da Praça Rodrigues Lobo, composto de dez carros alegóricos, três bandas filarmónicas, alunos de quase todas as escolas públicas e privadas do concelho, as principais associações, os bombeiros, a polícia e os corpos militares. Descerrou-se uma placa na parede do já demolido Teatro Maria Pia, projectada por Ernesto Korrodi, no Largo do Espírito Santo que se passou a chamar Largo Alexandre Herculano, num acto público em que intervieram o Governador Civil e o Presidente da Câmara. No salão e corredores do teatro foi oferecido um lanche a um milhar de crianças acompanhadas pelos seus professores. À noite, no mesmo teatro houve uma Sessão Solene. No palco estava um trono com quatrocentas crianças e um busto de Alexandre Herculano que será o mesmo que actualmente se conserva no Arquivo Distrital de Leiria. Fizeram-se comovidos e corajosos discursos de enaltecimento da figura de Alexandre Herculano e de elogio ao seu civismo e aos seus ideais de liberdade. A sessão terminou com um sarau abrilhantado pela banda militar e pelo orfeão infantil. No dia seguinte, no Liceu, realizou-se outra sessão solene. No palco estava um monumento desenhado por Ernesto Korrodi que se compunha de um medalhão em baixo-relevo com a figura de Alexandre Herculano e um obelisco em bronze que se elevava quase até ao tecto. Na mesa de honra estava o reitor do Liceu, o Director da Escola Normal e o Governador Civil. Houve discursos e palestras, uma das quais proferida pelo Dr. Correia Mateus, professor de História e presidente da câmara.
Cem anos depois, noutro ambiente cultural e num contexto histórico bem diferente do de 1910, Leiria também não esqueceu Alexandre Herculano, mesmo que o 2.º centenário do seu nascimento tenha sido quase geralmente olvidado e obnubilado pelo centenário da implantação da república.
Sexta-feira, dia 17 de Setembro, pelas 18 horas, o Centro de Património da Estremadura e o Arquivo Distrital realizam um colóquio evocativo de Alexandre Herculano.
Presidido pelo Dr. Guilherme de Oliveira Martins, permitirá abordar, em termos puramente historiográficos, as múltiplas facetas e actividades de Alexandre Herculano (historiador, paleógrafo, bibliotecário, poeta, romancista, contista, jornalista, político, agricultor).
O evento decorre no edifício do Arquivo Distrital de Leiria e é aberto a todos os interessados. Esperemos que em 2010 a população de Leiria não esqueça Alexandre Herculano e que depois do colóquio a cidade e o seu município levem mais longe o seu preito de homenagem ao ilustre escritor e insigne cidadão, um dos maiores que esta Pátria gerou. Uma das ideias possíveis pode ser a colocação de um busto em bronze no largo que tem o seu nome. A antiga placa desenhada por Ernesto Korrodi aguarda um lugar mais digno do que o chão do castelo onde agora repousa, abandonada…
Mário Rodrigues
Diário de Leiria
17 de Setembro de 2010