sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Alexandre Herculano e Coimbra




Coimbra perpetuou Alexandre Herculano de Carvalho Araújo na toponímia citadina, colocando o seu nome numa das artérias mais frequentadas da Alta, rua que liga a Praça João Paulo II à Praça da República. A homenagem foi-lhe prestada em 17 de Março de 1889, quando se inauguraram diversos arruamentos da Quinta de Santa Cruz, construídos após expropriações de casas e terraplanagem dos terrenos que tinham sido propriedade dos Crúzios. Mas, em 23 de Maio de 1878, a Faculdade de Direito, com quem Alexandre Herculano mantinha as melhores relações, tinha-lhe prestado, já, homenagem. O elogio histórico escrito pelo Lente Vicente Ferrer foi proferido no Instituto de Coimbra. Posteriormente, em 14 de Abril de 1910, ano do centenário do seu nascimento, nova homenagem com o descerramento de uma lápide de mármore e discurso do presidente da Câmara, Dr. Marnoco e Sousa. E, depois, outras.

Aquelas homenagens pretenderam testemunhar a gratidão de Coimbra à figura incontornável da História de Portugal, àquele que foi também romancista, poeta e um dos introdutores do romantismo português, a par de jornalista, de novelista, de presidente do Município de Belém e de Deputado da Nação, que foi pioneiro na defesa do património cultural da cidade e do país perante o vandalismo, roubo e venda dos mais diferentes e valiosos bens dos mosteiros e colégios religiosos, por oportunistas de diferente proveniência.

Quando o Mosteiro de Santa Cruz, delapidado de grande parte do seu património (Herculano salvou muito), foi notícia (triste) de que o Governo o pretendia entregar ao município para ser demolido e convertido numa praça pública, Herculano não deixou de estigmatizar a ideia, escrevendo: “o edifício dev(e)ia dar lugar a um terreiro amplo, bem amplo, onde a vadiagem possa estirar-se regaladamente ao sol”. Uma denúncia irónica do activo liberal (Opúsculos II, p.28).

E, mais tarde, ao fazer a evocação do valor da Sé Velha face à degradação e abandono da Catedral de Santa Maria redigiu, no início do seu célebre conto “O Bispo Negro”, pertinentes e angustiadas palavras que aludem ao seu lendário passado, ao tempo da sua juventude e às suas pedras douradas: “Houve tempo em que a velha catedral conimbricense, hoje abandonada dos seus bispos, era formosa; houve tempo em que essas pedras, ora tisnadas pelos anos, eram ainda pálidas, como as margens areentas do Mondego. Então, o luar, batendo nos lanços dos seus muros, dava um reflexo de luz suavíssima, mais rica de saudade que os próprios raios daquele planeta guardador dos segredos de tantas almas…” (O Bispo Negro, 1130, in Obras Completas, Lendas e Narrativas, 2ª.ed., tomo II, Lisboa, Bertrand, 1974, p.79).

Passam duzentos anos sobre a data do seu nascimento. Coimbra, que tanto exaltou o historiador, desde 1878, não poderá ficar indiferente, nesta efeméride. Pensamos, ser de toda a justiça, que quer a Universidade, a Câmara ou outra instituição devam tributar-lhe, mesmo singelamente, um momento de homenagem. Coimbra que tem homenageado, desde sempre, figuras de prestígio nacional e internacional, com certeza e na nossa opinião de cidadão e conimbricense, não deixará olvidar o bicentenário.

A vida de Alexandre Herculano cimentou-se numa intensa actividade histórica e literária sustentada na integridade do seu carácter, na coerência do pensar e agir, tendo sido um pensador profundo, uma personalidade completa que usou uma paciência beneditina na investigação. Penetrante agudeza da crítica histórica, com imaginação efabuladora de romancista e dramaturgo, pugnou, sempre, pela instrução das pessoas, ou seja, insistia com toda a razão, que um Povo sem instrução não pode desenvolver a Nação e tomar decisões para o seu progresso e bem-estar.

Mário Nunes

Diário As Beiras

17 de Setembro de 2010