terça-feira, 5 de outubro de 2010

Poema

Como um Catão moderno, austero e rude,

a ninguém perdoaste uma só falta,

porquanto foste um caso de virtude

e de moralidade sempre em alta!



Ouvia-te o país desgovernado

com reverência e a máxima atenção,

buscando em ti, no teu pendor honrado,

para o seu descalabro a solução.



De estilo vigoroso e justiceiro,

tanto na prosa como em poesia,

do romantismo foste um pioneiro.



Ante a tua memória me descubro

com minha inalterável simpatia

e meu patriotismo posto ao rubro!



João de Castro Nunes


Fonte: HistPort




domingo, 26 de setembro de 2010

Próximos eventos

Dia 4 de Outubro
HERCULANO – DOIS SÉCULOS DE MUTUALISMO

(Auditório do Montepio – Rua do Ouro) – 18H
António Valdemar, Guilherme de Oliveira Martins, Vítor Melícias

Dia 12 de Outubro
HERCULANO MAÇON

(Grémio Lusitano – Bairro Alto) - 18H30
João Alves Dias

Dia 19 de Outubro
HERCULANO NA LITERATURA PORTUGUESA E A DIMENSÃO
ÉTICA DO ESCRITOR

(Centro Nacional de Cultura – Chiado) – 18H30
José Manuel Mendes

Dia 26 de Outubro
A CONSCIÊNCIA POLÍTICA DE ALEXANDRE HERCULANO
E O SEU CONTRIBUTO PARA A CIDADANIA

(Café Martinho da Arcada – Praça do Comércio) – 19H30
Diogo Freitas do Amaral, Eduardo Lourenço e Guilherme de Oliveira Martins

Moderadores: António Valdemar, José Manuel Mendes, Luís Machado



Fonte:

CNC

Homenagem a Alexandre Herculano


Há cem anos, foi assim em Leiria:

«O dia 27 [de Abril] deve considerar-se memoravel nos registos festivos d’esta cidade, pelo esplendor, pela animação e, sobretudo, pela elevada significação civica e patriotica das festividades promovidas pela benemerita Filial da Liga Nacional de Instrucção de Leiria em consagração do renome do grande escriptor, profundo historiador e devotadissimo português que em vida se chamou Alexandre Herculano.

Pode orgulhar-se a nossa bella cidade de ter contribuido brilhantemente para a apotheose da majestosa individualidade do poetta da “Harpa do Crente”, para essa nobilitante glorificação nacional que acaba de se celebrar em todo o país como testemunho de culto fervoroso á memoria do ardente defensor da liberdade, que foi também o português mais illustre do seculo XIX» (Jornal “O Districto de Leiria”, 30 de Abril de 1910).

Comemorava-se então o primeiro centenário do nascimento de Alexandre Herculano e Portugal devotou ao seu brilhante historiador amplas emocionantes homenagens.

Leiria não se deixou ficar para trás e dedicou a Alexandre Herculano um dos mais grandiosos festejos que nesse ano se realizaram a nível nacional.

Lançou e dirigiu a iniciativa a delegação de Leiria da Liga Nacional de Instrução. Um «Cortejo Cívico» percorreu a cidade, a partir da Praça Rodrigues Lobo, composto de dez carros alegóricos, três bandas filarmónicas, alunos de quase todas as escolas públicas e privadas do concelho, as principais associações, os bombeiros, a polícia e os corpos militares. Descerrou-se uma placa na parede do já demolido Teatro Maria Pia, projectada por Ernesto Korrodi, no Largo do Espírito Santo que se passou a chamar Largo Alexandre Herculano, num acto público em que intervieram o Governador Civil e o Presidente da Câmara. No salão e corredores do teatro foi oferecido um lanche a um milhar de crianças acompanhadas pelos seus professores. À noite, no mesmo teatro houve uma Sessão Solene. No palco estava um trono com quatrocentas crianças e um busto de Alexandre Herculano que será o mesmo que actualmente se conserva no Arquivo Distrital de Leiria. Fizeram-se comovidos e corajosos discursos de enaltecimento da figura de Alexandre Herculano e de elogio ao seu civismo e aos seus ideais de liberdade. A sessão terminou com um sarau abrilhantado pela banda militar e pelo orfeão infantil. No dia seguinte, no Liceu, realizou-se outra sessão solene. No palco estava um monumento desenhado por Ernesto Korrodi que se compunha de um medalhão em baixo-relevo com a figura de Alexandre Herculano e um obelisco em bronze que se elevava quase até ao tecto. Na mesa de honra estava o reitor do Liceu, o Director da Escola Normal e o Governador Civil. Houve discursos e palestras, uma das quais proferida pelo Dr. Correia Mateus, professor de História e presidente da câmara.

Cem anos depois, noutro ambiente cultural e num contexto histórico bem diferente do de 1910, Leiria também não esqueceu Alexandre Herculano, mesmo que o 2.º centenário do seu nascimento tenha sido quase geralmente olvidado e obnubilado pelo centenário da implantação da república.

Sexta-feira, dia 17 de Setembro, pelas 18 horas, o Centro de Património da Estremadura e o Arquivo Distrital realizam um colóquio evocativo de Alexandre Herculano.

Presidido pelo Dr. Guilherme de Oliveira Martins, permitirá abordar, em termos puramente historiográficos, as múltiplas facetas e actividades de Alexandre Herculano (historiador, paleógrafo, bibliotecário, poeta, romancista, contista, jornalista, político, agricultor).

O evento decorre no edifício do Arquivo Distrital de Leiria e é aberto a todos os interessados. Esperemos que em 2010 a população de Leiria não esqueça Alexandre Herculano e que depois do colóquio a cidade e o seu município levem mais longe o seu preito de homenagem ao ilustre escritor e insigne cidadão, um dos maiores que esta Pátria gerou. Uma das ideias possíveis pode ser a colocação de um busto em bronze no largo que tem o seu nome. A antiga placa desenhada por Ernesto Korrodi aguarda um lugar mais digno do que o chão do castelo onde agora repousa, abandonada…

Mário Rodrigues

Diário de Leiria
17 de Setembro de 2010





sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Alexandre Herculano e Coimbra




Coimbra perpetuou Alexandre Herculano de Carvalho Araújo na toponímia citadina, colocando o seu nome numa das artérias mais frequentadas da Alta, rua que liga a Praça João Paulo II à Praça da República. A homenagem foi-lhe prestada em 17 de Março de 1889, quando se inauguraram diversos arruamentos da Quinta de Santa Cruz, construídos após expropriações de casas e terraplanagem dos terrenos que tinham sido propriedade dos Crúzios. Mas, em 23 de Maio de 1878, a Faculdade de Direito, com quem Alexandre Herculano mantinha as melhores relações, tinha-lhe prestado, já, homenagem. O elogio histórico escrito pelo Lente Vicente Ferrer foi proferido no Instituto de Coimbra. Posteriormente, em 14 de Abril de 1910, ano do centenário do seu nascimento, nova homenagem com o descerramento de uma lápide de mármore e discurso do presidente da Câmara, Dr. Marnoco e Sousa. E, depois, outras.

Aquelas homenagens pretenderam testemunhar a gratidão de Coimbra à figura incontornável da História de Portugal, àquele que foi também romancista, poeta e um dos introdutores do romantismo português, a par de jornalista, de novelista, de presidente do Município de Belém e de Deputado da Nação, que foi pioneiro na defesa do património cultural da cidade e do país perante o vandalismo, roubo e venda dos mais diferentes e valiosos bens dos mosteiros e colégios religiosos, por oportunistas de diferente proveniência.

Quando o Mosteiro de Santa Cruz, delapidado de grande parte do seu património (Herculano salvou muito), foi notícia (triste) de que o Governo o pretendia entregar ao município para ser demolido e convertido numa praça pública, Herculano não deixou de estigmatizar a ideia, escrevendo: “o edifício dev(e)ia dar lugar a um terreiro amplo, bem amplo, onde a vadiagem possa estirar-se regaladamente ao sol”. Uma denúncia irónica do activo liberal (Opúsculos II, p.28).

E, mais tarde, ao fazer a evocação do valor da Sé Velha face à degradação e abandono da Catedral de Santa Maria redigiu, no início do seu célebre conto “O Bispo Negro”, pertinentes e angustiadas palavras que aludem ao seu lendário passado, ao tempo da sua juventude e às suas pedras douradas: “Houve tempo em que a velha catedral conimbricense, hoje abandonada dos seus bispos, era formosa; houve tempo em que essas pedras, ora tisnadas pelos anos, eram ainda pálidas, como as margens areentas do Mondego. Então, o luar, batendo nos lanços dos seus muros, dava um reflexo de luz suavíssima, mais rica de saudade que os próprios raios daquele planeta guardador dos segredos de tantas almas…” (O Bispo Negro, 1130, in Obras Completas, Lendas e Narrativas, 2ª.ed., tomo II, Lisboa, Bertrand, 1974, p.79).

Passam duzentos anos sobre a data do seu nascimento. Coimbra, que tanto exaltou o historiador, desde 1878, não poderá ficar indiferente, nesta efeméride. Pensamos, ser de toda a justiça, que quer a Universidade, a Câmara ou outra instituição devam tributar-lhe, mesmo singelamente, um momento de homenagem. Coimbra que tem homenageado, desde sempre, figuras de prestígio nacional e internacional, com certeza e na nossa opinião de cidadão e conimbricense, não deixará olvidar o bicentenário.

A vida de Alexandre Herculano cimentou-se numa intensa actividade histórica e literária sustentada na integridade do seu carácter, na coerência do pensar e agir, tendo sido um pensador profundo, uma personalidade completa que usou uma paciência beneditina na investigação. Penetrante agudeza da crítica histórica, com imaginação efabuladora de romancista e dramaturgo, pugnou, sempre, pela instrução das pessoas, ou seja, insistia com toda a razão, que um Povo sem instrução não pode desenvolver a Nação e tomar decisões para o seu progresso e bem-estar.

Mário Nunes

Diário As Beiras

17 de Setembro de 2010




quinta-feira, 9 de setembro de 2010