3. A Academia das Ciências de Lisboa resolveu festejar, em boa hora, o duplo centenário do nascimento do insigne historiador, romancista, poeta e combatente liberal Alexandre Herculano, Nasceu a 18 de Março de 1810, em Lisboa, no antigo Pátio do Gil, na Rua de São Bento, e faleceu na sua célebre Quinta de Vale de Lobos, perto de Santarém, a 13 de Setembro de 1877. Bulhão Pato, poeta romântico, amigo e admirador de Herculano, conta nas suas interessantes Memórias a morte de Alexandre Herculano, a que assistiu, e a enorme emoção que provocou na sociedade portuguesa.
Herculano foi um homem de grandes convicções liberais. Daí que tenha combatido as tropas absolutistas de D. Miguel e tenha sido forçado a exilar-se na Galiza (1828) e, mais tarde, em França e Inglaterra. Foi um dos 7500 "Bravos do Mindelo", vindos dos Açores (Terceira) para derrotar D. Miguel, sob o comando de D. Pedro, que abdicou de imperador do Brasil, para defender sua filha e herdeira, D. Maria II. Durante o cerco do Porto, foi nomeado bibliotecário da Biblioteca do Porto, tendo regressado a Lisboa depois da vitória liberal de Évora Monte e a abdicação de D. Miguel (1834). Alexandre Herculano foi um partidário da Carta Constitucional, outorgada por D. Pedro. A Revolução de Setembro (1836) aboliu a Carta, substituída legitimamente, após eleições, pela Constituição de 1838. Herculano, cartista, escreveu contra os setembristas, dos irmãos Passos Manuel, um folheto intitulado "A voz do Profeta".
Dirigiu então a Revista Panorama, de literatura e história, editada pela Sociedade Portuguesa dos Conhecimentos Úteis. Foi depois nomeado director da Biblioteca da Ajuda, onde realizou um trabalho notável de investigação.
Escreveu, incansavelmente, livros como: Cartas da História de Portugal, que precedeu a sua História de Portugal, infelizmente incompleta, romances históricos, como o Monge de Cister, o Bobo e Eurico, o Presbítero, Lendas e Narrativas e o livro de poesia A Harpa do Crente, etc. E um livro com enorme repercussão: História da Inquisição em Portugal, que lhe valeu uma polémica vigorosa com a Igreja. Publicou então três Opúsculos importantes: Eu e o Clero; Considerações Pacíficas; e Solemnia Verba. E ainda um estudo sobre o seu muito admirado Mouzinho da Silveira.
De 1853 a1854, percorreu os arquivos do Norte do País, a examinar documentos de interesse histórico, dispersos, para os compilar na Portugaliae Monumenta Historica. Exerceu então um trabalho de grande relevo para o estudo do nosso passado histórico, que mereceu a admiração do país culto.
Foi ainda uma espécie de tutor cultural do rei D. Pedro V, do qual esperava muito, mas que morreu muito jovem. Constituiu, essa morte, um grande desgosto para Alexandre Herculano. Teve, também um incidente na Academia das Ciências, com um funcionário acusado de desviar documentos. O que levou o Governo de então, hostil a Herculano, a nomear esse funcionário director da Torre do Tombo, impossibilitando assim as investigações de Herculano.
Por isso, desgostoso, retirou-se para a pequena Quinta de Vale de Lobos, com o seu enorme prestígio moral, literário e de historiador, no auge. Faleceu em Vale de Lobos e mais tarde foi trasladado para os Jerónimos, onde repousa, perto de Camões e agora de Fernando Pessoa. Todos, grandes glórias pátrias.
Na minha juventude, estudávamos muito a obra de Herculano. Cito, entre tantos outros, os livros de Joaquim Barradas de Carvalho: As Ideias Políticas e Sociais de Alexandre Herculano; e de António José Saraiva: Herculano, desconhecido. Para já não falar, entre outros, dos ensaios inesquecíveis de António Sérgio e de Vitorino Nemésio.
A Academia das Ciências - e o seu presidente, Adriano Moreira - está de parabéns por ter organizado um colóquio, que teve intervenções notáveis, sobre Alexandre Herculano e a sua obra, no ano do duplo centenário do seu nascimento. Não podia ser esquecido. A Pátria e a República devem celebrar os seus grandes homens.
Fonte: DN